domingo, 22 de maio de 2011

Gosto do novo acordo ortográfico!

Escrever bem e sem erros é um dever de todo e qualquer patriota Português. Se defendemos o país, há que defender a língua. A língua é a identidade de um povo, uma das provas mais nobres da soberania de um Estado, um testemunho vivo do legado histórico dos antepassados, das tradições e costumes. É uma delícia escrever nesta língua, é tão bom expressar o que vai na alma nesta nobre língua herdeira do Latim. Mas e agora? Um acordo tão estranho nos atrapalha os modos e nos tira certezas na retidão da ortografia, sim que no que se fala nada muda, mas na ortografia há algo estranho por aí. E eu gosto. Gosto da mudança, gosto da evolução da nossa língua que só prova que está viva e gosto deste novo desafio. Escrever já hoje com o novo acordo na ponta da esferográfica. Mas à parte dos meus pensamentos, partilho um excelente texto com um outro ponto de vista, bem mais otimista e virado para o futuro do que a banal e comum apatia de tantos que resistem às novas regras.


«Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos. Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham. As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.»
Manuel Halpern



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