segunda-feira, 11 de junho de 2007

GR22 - No trilho


Mas que belos dias vividos no interior norte deste nosso país. Foram cerca de 120 Km pedalados, com uns aproximados 2500m de subidas acumulados em 3 dias deste Junho. Nada de transcendente, com um tempo a ajudar e a pintar de várias emoções as diferentes horas dos dias. O objectivo era a GR22, ou Grande Rota das Aldeias Históricas. O plano inicial, Pocinho – Marialva – Sabugal, era pura e simplesmente muito ambicioso. Possível, sem dúvida, mas com outro espírito que não este, o de desfrutar a companhia, as gentes e as paisagens. Por isso roubamos aos pedais o troço Castelo Rodrigo – Almeida. Saímos de carro, com as bicicletas nos tejadilhos e invertendo o sentido inicial terminamos todos, o troço Castelo Mendo – Almeida. Mas… a melhor descrição destes dias que posso partilhar é um exercício, um exercício de memórias, para se fazer de olhos fechados, começa assim:

Imagina-te. Imagina-te a correr para um comboio que já deveria ter saído da estação. Tu e teus 3 amigos, cada um na sua bicicleta. Consegues entrar, precipitando corpos, mochilas e máquinas para a carruagem de carga. Entra tudo e o comboio arranca. Conseguiste apanhar o IR da Linha do Douro em Campanhã rumo ao Pocinho. Deixaste ali o stress todo, sentes que agora sim podes relaxar e desfrutar da viagem. Tens 3h. Para dormir, para comer e principalmente para apreciar a paisagem. Pouco a pouco percebe-se o que aí vem. O Douro aproxima-se ao ritmo lento da composição. As encostas estão ali à distância de um disparo da máquina fotográfica. O ambiente é muito familiar. Neste feriado, praticamente todos nós somos passeantes. Imagina as quintas do Douro ali na janela e ainda reflectidas no espelho de água tranquilo do rio. Aqui e ali há foguetes. Afinal de contas hoje é feriado do Corpo de Deus, religiosamente celebrado aqui pelo norte. Paramos num apeadeiro engalanado para tais celebrações. Vêm-se confrades vestidos a rigor, escuteiros, roupas domingueiras e… uma banda de música. O maestro prepara e a banda, virada para as cochias do comboio, começa a tocar. Cerca de 30 pessoas a entoar uma melodia de festa, para nós. Que alegria reina por estes lados. Agora imagina que vês o Pocinho lá ao fundo e que chegas então à hora prevista ao destino impresso do teu bilhete. Imagina-te então a começar a pedalar, com muita calma, em direcção a VN Foz Côa. Vais por estrada, mas a paisagem e o dia solarengo enchem as vistas. O esforço não é muito. Imagina que tens uma pedalada leve, muitas vezes. Chegas à vila, segues as placas para Castelo Melhor. A descida até ao Côa é rápida e serve para dar descanso às costas. Agora sobes e agora sim, penosamente. A hora é de calor, muito calor. Os 2l de água que tens às costas pesam cada vez menos. Chegas à vila destino em 1h45min (24Km), o que dá ainda tempo para almoçar no restaurante “Paleolítico”. Chegas e partes de jipe para a visita às gravuras, lá no fundo. Imagina que o vinho do almoço, o calor da tarde e os safanões do jipe te fazem muitas cócegas e rir é uma constante. O guia não percebe e julga ser ele o motivo da chacota. Pouco a pouco lá alinha e no fim, até quer contratar um dos teus amigos para guia. As gravuras não encantam nem desencantam. Vêem-se uma vez e é suficiente. O lugar das gravuras é que sim, queres continuar viagem por aqui e não, para trás, outra vez por estrada. Não sabemos é se temos saída e se o rio nos deixa atravessar. Decides em grupo, arriscar a travessia, de BTT por aqui. Largas o centro de interpretação do Parque e desces adrenalinamente pelo caminho de terra até ao rio. O calor é uma constante. Vais a banhos. A água está um espectáculo. Ficas ali, com água pelo pescoço, 1 hora, relaxadamente com uma paisagem extenuante. Atravessas afinal facilmente o curso de água. Estamos do outro lado e queremos então chegar a Muxagata, pela Quinta da Ervamoira. Pedalas, olhas à volta e só vês uma casa e hectares sem fim de vinha do Douro. Estás num dos labirínticos corredores da quinta. A subida é dura. Paras para contemplar, respirar e beber água sem sofreguidão. O destino final, Mêda demora a chegar até nós. A subida é uma constante. Já somas 40Km. Chegas tarde à "Pensão Santo António" e pedem-te para te sentares logo à mesa, assim suado, sem tomar banho. Começam a servir uma picanha deliciosa, arroz, feijão preto, ah e sopa, e vinho e salada e depois perguntam: “Chega ou querem mais um bocadinho de carne.” Já não seria preciso, mas pode trazer mais. Vem outra travessa igual. Desesperas porque pediste o que já não consegues comer. Alguém diz - “Eh pá, se não se comer, faz-se umas sandes para amanhã!” – mas não, come-se tudo, deve ter sido mais de 1 Kg de carne… “Aqui em Meda come-se bem”, diz orgulhosamente a dona da pensão. E o pequeno-almoço? Contra pedido arrojado, a resposta é afirmativa, fazem-te um esparguete para reforçar a resistência ao esforço do dia. Além dos sumos, galões, sandes mistas e mais sumos, as duas travessas de esparguete, deixam-nos incrédulos, alojamento e este pequeno-almoço, tudo por 12,5
, incrível. Imagina agora que continuas, com muita vontade, para encontrar finalmente a GR22. Marialva é perto. Lá do alto do Castelo vê-se uma paisagem sem fim. Os cheiros de campo limpam os pulmões. Lá ao fundo adivinhas o trilho, a serpentear os campos para sul. A primeira marca, está logo aqui no fundo da vila. O trilho começa então por entre os campos, rápido, com as rodas da bicicleta a serem tapadas pelas centenas de flores silvestres. Umas lagartixas fogem assustadas, mais rápido que os teus 15Km/h. Os aromas do campo são agora perfumados. Que liberdade esta. O destino é Castelo Rodrigo. Entre caminhos, estrada, estradões lá vais ficando cada vez mais perto. Há outra descida louca até às entranhas do Côa. Hoje já não se fazem estradas assim. Consequente subida penosa. O que vale, hoje, está o sol tapado, muitas vezes a ameaçar chover. O corpo ressente-se aqui e ali, mas de desgaste. Paragem técnica para reabastecimento tardio. São 15h e ainda não almoçaste, estás sem água. A Isabelinha não tem nada para comer. A Paula, lá arranja uns petiscos, que preenchem o apetite voraz do esforço da subida. Estás em Quintãs de Pêro Martins. Lá fora começa a chover forte. O carteiro que chega com o correio e bebe uma cola diz que é para o resto do dia, mas engana-se. Pára a tempo de te aprontarmos para nova saída. Continuas pelo trilho, sem calor e na expectativa da chuva. Mas não chove mais. Encontras um pastor, guardião de 200 ovelhas e conversas com o homem apressado a reconduzir o rebanho que se aproxima. Os 10 cães ajudam. Sobes ao cimo da Serra da Marofa. Um troço lamacento presenteia-te com uma nuvem de moscas que não te largam. Irritam, cansam e enervam. Demoram a ficar para trás. Apenas a descida do cimo da Serra para Castelo Rodrigo, as vencem, que alívio. Castelo Rodrigo, no alto, como todas as aldeias históricas é misteriosa, principalmente com este céu cinzento das nuvens, parece ganhar mais misticismo. Paragem técnica, com bebida e alheira no “Cantinho dos avós”. Há uma guitarra, há guitarrista, acordes soltos tornam o ambiente “nosso”. Que belo fim-de-dia. A dormida é em Figueira de Castelo Rodrigo. Recepção acolhedora na “Residencial Arco-Íris”. Tomas um banho daqueles e sais. O corpo está todo ele relaxado, confortado pelo calor do corpo e roupa lavada. A vila é calma e o passeio a pé alivia-te as articulações. Bacalhau farto no jantar por ali. O nosso apoio, as 2 Lilianas chegam. A alegria da partilha começa aí. Estamos bem e prontos para uma etapa conjunta e leve, amanhã. No dia seguinte levantas-te descontraidamente e após logística de reposicionamento do grupo, estás em Castelo Mendo, a +/- 50Km do C.Rodrigo, pronto para a última etapa deste fds. O almoço pré-preparado pela pedragrega sabe-te pela vida. E surpreende pela variedade dos alimentos. O trilho começa então após subida leve de estrada e desenvolve-se fácil pelo campos fora, num incrível planalto, sobranceiro ao Côa. As searas penteadas pelo vento têm umas cores incríveis. O tempo corre devagar para este dia de 20Km. Há tempo para parar junto a uma capela perdida no alto, a contemplar as vistas e trautear estórias. É tempo de banho. O Côa novamente. Relaxe total. Ao dia apetece tirar fotos, muitas fotos. Uma cobra de água move-se à superfície da água com a cabeça erguida e assustada pelo nosso tumulto. Sobes a Almeida e contemplas outra vista, outra vez magnífica. Duche de água potentíssimo na residencial “A muralha” e o Pôr-do-Sol romântico, quase não visto do cimo da muralha. Jantar e acesa discussão sobre religião em tasco intra-muralhas. Regresso descontraído aos aposentos. Domingo chove. Já não tens de pedalar. O objectivo do dia é visita a Celorico… da Beira e repasto no “Escorropicha Ana” em Carrapichana. Que delícia de cabrito. Opinião unânime. Servido na telha, tanto assado como grelhado. As sobremesas são tão chamativas que no fim, mais olhos que barriga, ainda sobra nos pratos. Regressas a casa cansado mas com aquela satisfação de teres encontrado mais uma mão cheia de mágicos momentos.

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