segunda-feira, 2 de abril de 2007

Este nobre sentido


Finalmente consegui usufruir da prenda de Natal que aguardava agenda desde essa altura: "Curso de iniciação à técnica da Prova de Vinhos". Obrigado pedragrega. Gostei muito. Mas mais admirável que a conquista imediata da perspicácia característica de um profissional enólogo, o que me ficou foi uma ainda maior admiração pelo néctar dos Deuses e uma admiração ainda mais forte perante o poder dos aromas. Como já dizia, Hemingway, apaixonado de África como nós, "O conhecimento e educação sensorial apurada podem obter do vinho prazeres infinitos".
Foram uns belos mágicos momentos, conduzidos de olhos fechados pelo imenso mundo dos aromas. O olfacto é um potente sentido, que nós humanos usamos de uma forma injusta. Tornamo-nos seres extremamente visuais. O bonito é fotogénico, o exuberante é colorido, uma imagem vale mais que mil palavras mas... um aroma leva-nos bem mais longe. Que o diga o lado mais primitivo do nosso cérebro. E é fácil despertar este glamour. Basta alguma atenção e dedicação a esta valência perdida. A experiência de enalar de um copo, um vinho previamente desconhecido (prova cega, com o rótulo tapado), tentando descobrir o/s aroma/s predominante/s é sugestivo, por vezes frustante (nos vinhos mais complexos, digo eu agora), mas é fantástico. O nosso cérebro tem capacidade para distinguir 10 milhões de aromas diferentes e nós pouco sabemos deles. O pior não está em encontrá-los, está mais em descrevê-los. Normalmente dizemos cheira bem/mal, nada mais. Mas com uma boa dose de imaginação, podemos dizer é um cheiro frutado, vegetal, sulfuroso, mineral, ou ainda mais específico, do género: cheira-me a manga, a limão, a feno, a chocolate preto, a leite, a palha, a ferro, a madeira, a fumo, a baunilha, a ponta de lápis, a mala de senhora, a cão molhado... tantos cheiros quantos a nossa "memória olfactiva" se consiga lembrar!! O primeiro meu despertar para este mundo foi quando li "O perfume". Embora seja a história de um assasino, a forma como o narrador descreve cheiros e aromas, fez-me andar uns tempos de nariz levantado, por todo o lado, atento aos cheiros que me rodeavam. Agora, aqui, cheira-me aqui a humidade, um pouco a celulose, fruto do papel que me rodeia. E por aí, cheira a quê?

19 comentários:

Joana disse...

ó paulinho, nem de propósito! cheira-me intensamente a sopa de cebola desde manha cedo! argh! como toda a gente já me garantiu que pôs desodorizante de manhã, só pode ser da provimi, a fábrica de rações de gado aqui em frente! às vezes cheira a bifes com cogumelos, outras vezes a refogado, e até não é mau (mesmo sabendo que é ração!), agora sopa de cebola! blhec!

pedragrega disse...

A mim cheira a abafado e cérebros torrados! Pode ser? :P

silver disse...

aki xeira a merd@ pq tou na ETAR :D

Anónimo disse...

cheira-me q vai chover... e por falar em chover... e em cheiro... nao é nova, mas fica aqui... sabiam que cientistas britânicos descobriram que os camelos usam o faro para encontrar água no deserto: o cheiro de terra molhada é produzido por um gene que desprende a substância química geosmina, presente na Streptomyces, bactéria usada para produzir antibióticos e remédios contra o cancro.
Parabéns ao Paulo e a todos os q aqui escrevem, não é um blog fala barato, aprende-se sempre qq coisa.

silver disse...

nos somos todos mto kultos abel!

basto disse...

..é um cheiro tão nobre como qualquer outro. A mim servia-me de despertador, o cheiro a m*#$%a de Cacia no apeadeiro antes de Aveiro. Acordava sempre. Nos vinhos poder-se-ia dizer que o aroma tem.. defeito, caso se notasse vestígios disso!

basto disse...

Grande Abel, adorei conhecer a geosmina. O aroma a terra molhada é fantástico! Obrigado tb pela tua atenção e participação nos debates. Abraço.

basto disse...

Desafio: quem arranja um poeminha alusivo a este tema cheiros/aromas/perfumes?

basto disse...

"Este perfume tinha frescura; não era, porém, a frescura das limas ou das laranjas, a frescura da mirra ou da folha de canela, ou da hortelã ou das bétulas... nem a de uma chuva de Maio, de um vento gelado ou da água de uma nascente... e continha simultaneamente calor; mas não um calor semelhante ao da bergamota, do cipreste ou do musgo… nem ao de um bosqueado de rosas ou de ísis... Este perfume era uma mistura de ambos, do que passa e do que pesa; não uma mistura, mas uma unidade, e, além disso, humilde e fraco, e, no entanto, robusto e resistente como um pedaço de seda fina e brilhante... e, todavia, não como a seda, mas antes como o leite com mel onde se molha um biscoito, o que nem com a melhor das boas vontades se conjugava:leite e seda! Incompreensível este perfume, indescrítivel, impossível de classificar…”

(Patrick Suskind, O Perfume)

Liliana disse...

Querido Abel, vi há tempos um documentário sobre ursos. E são estes animais, de grande porte, que detêm o melhor olfacto.
Estes bichos podem percorrer cerca de 60 km atrás do cheiro de comida!! Impressionante!
Beijos, Li.

Joana disse...

esta fábrica é fantástica! hoje de manhã cheirava a leite creme! paulinho estou a procura de poemas

Liliana disse...

Hee janeca, por isso é que não respondes aos e-mails...andas perdida na procura dos poemas, hehehe

silver disse...

poemas eh com a anal-xandra!

xamem a moska mota

Anónimo disse...

Obg Liliana e Paulo pelas vossas palavras, alinho no desafio e sugiro este poema/ aglomerado de palavras que nos transporta para o subtil aroma de cada pedaço de terra que já pisámos, nesta inebriante conquista deste sentido:

"Gostava de correr mundo, conhecer novos mundos dentro deste, conhecer novos climas, sentir novos perfumes. Todas as coisas têm um perfume próprio, característico, que as faz serem distintas do resto, e é essa essência que eu tenho vontade de cheirar, de encher os pulmões com ela…
Saber e ter consciência que o mundo é muito mais que as minhas quatro paredes, muito mais que as pessoas que conheço, do alcatrão que piso. Quero cheirar e tirar partido disso. Enriquecer a minha palete de perfumes." autor desconhecido

Delichon urbica disse...

ola amigos :) que alegria ver poesia por aqui :D Lili e Fá, não sei se consigo dizer alguma coisa de jeito depois de ter lido as vossas divagações e poemas, vou tentar...
beijos
Ana Alex

Ana Teixeira disse...

ahh, só mais uma coisa... cheiro é a minha especialidade, aliás o mau cheiro?! pois não se esqueçam que o meu projecto final de curso foi sobre o odor, mais concretamente a olfactometria dinâmica, e fartei-me de cheirar n-butanol entre outras coisas :P

Ana Teixeira disse...

o prometido é devido, escrevi hoje, espero que apreciem :P


Percepção sensorial

Estática, cerro os olhos num silêncio afincado
Para na hipnose instigada de um mergulho diligente
Me aventurar pela percepção do perfume dos sentidos.
Cada aroma uma memória, cada sabor uma canção
Estímulos intemporais revelam uma nova dimensão.

O cheiro a terra molhada…é a promessa da Natureza revigorada
O cheiro de criança…é a promessa de infinitos sorrisos de Esperança
O cheiro da infância…é a promessa à essência sem percorrer distância
O cheiro do teu corpo… é a promessa em mar de um constante anteporto
O cheiro dos que partiram…a certeza de que em nós ficaram.

Nos milhões de enigmáticos e mágicos aromas a descobrir
Reside a completa e derradeira experiência do sentir.
Inalar fantasias, despertar memórias… respirar o presente
É apreender melhor o mundo, viver mais intensamente!

Renasço a cada nova fragrância, nutrindo a alma de apurada existência.

basto disse...

clap clap clap!!!
Que espectáculo Ana!
Parabéns pelo fabuloso tributo teu a este nosso nobre sentido. Obrigado por partilhares connosco. Gostei muito. Beijinhos

silver disse...

como todos os poemas da anal-xandra, não se percebe nada...usas demasiadas palavras karas e a maior parte das vezes NAO RIMAS!

vá lá, ao menos não cantaste..........eheheh