quarta-feira, 27 de maio de 2015

Cidade e Aldeia

Desperta em mim a vontade de mergulhar no melhor de cada um destes mundos. A cidade cosmopolita, ávida de pressa, imensa de propostas, ruborizada de tanta energia. A aldeia rústica, envolvente de ternura, agreste na envolvente, remota na localização, plena de paz. Sinto-me cosmopolita, no dia a dia sem esforço, pela cidade. O frenesim louco que nos repele, equilibra-se com a conveniência dos serviços, do conforto, da tão nobre e sã convivência entre nós, muitos humanos, condensados nesta prensada parcela territorial da cidade. Não descuro contudo a aldeia. A serenidade dos dias, o relógio biológico das colheitas, a exigência dos bichos, a autonomia do dia a dia. Nasci e vivo hoje no Porto. Vivi a nobre infância em Celorico de Basto. Citando Sepúlveda, nós somos de onde vivemos. Sendo assim, Portuense, residente nesta cidade de dimensão média. Mas de coração, sinto-me Celoricense. Embaixador das Terras de Basto, porta voz da média interioridade. Sim, que este meu Celorico noutra latitude qualquer bem poderia ser incluído no perímetro da metrópole. Sinto e partilho com os amigos de Celorico um orgulho desmesurado pela Terra. Um ímpeto quase infantil de gritar, eu sou de Celorico! Uma ternura pelo Tâmega, pelo Freixieiro, pelo verde vinho, pela Santa Catarina, pela S. Tiago, pelas Camélias, pelo Castelo, pelo Viso, pela zona verde, pela Biblioteca Professor Marcelo de Sousa, pelos formigos, pelo sotaque, pelas gentes. Noutra escala o Porto cidade também é muito meu e agrega um orgulho maior, que aqui também se confunde com o futebol. Ser do Porto é uma expressão plena de caráter. Revela a ousadia de negar a capital. De sublinhar o esforço diário que uma segunda cidade tem, na afirmação, convição e tenacidade em afirmar-se de si. Mas a cidade e a aldeia são muito bem mais uma metáfora global do que esta minha personificação entre Porto e Celorico. A cidade é o mundo, a aldeia o lar. Eça de Queirós tem um relato incrível de ambas no romance "A cidade e as Serras", que li, já nem sei quando. Mais recentemente tropecei em Walden "A vida nos bosques" que está na pilha para ler. Mas uma das mais eloquentes expressões entre a cidade e o campo está n' "A Caverna" de Saramago. Na cidade ou na aldeia, onde me sinto melhor? Depende. Ontem na aldeia. Hoje na cidade. Amanhã será tão bom poder optar.



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