sexta-feira, 2 de março de 2007

A "nossa" Montanha


Gostava de vos ter contado tim-tim por tim-tim cada passo daqueles dias passados para la' dos portoes do parque Nacional do Kilimanjaro, mas claro, foi impossivel. Obrigado Joao, pela comunicacao intermedia quando esta foi possivel.

Acabamos de chegar a Nairobi, cidade caotica, que nao nos agrada assim a primeira vista, mas isto tb e' fruto de nao conhecermos (ainda) aqui ninguem e por termos tido uma viagem agitadissima de bus, durante umas 6h empacotados num banco de tras. Tem a vantagem de finalmente termos net como deve ser e, de se conseguir nao gastar 30min apenas so para escrever um mail, o que aconteceu em Arusha. Aproveito entao para partilhar um pouco mais daquilo que passamos montanha.
Para comecar, digo-vos que superou todas as nossas melhores expectativas. Confesso que de inicio duvidava da nossa chegada ao cume, nao por falta de forca, mas antes por reaccao adversa aquelas altitudes extremas. Tenho a certeza que se eu ou a Li tivessemos com sintomas da doenca de altitude na vespera do cume, nao tinhamos hoje esta estoria! A experiencia fica marcada logo pelo esforco e empenho necessario na preparacao/logistica. Alem da que trouxemos de Portugal, repararam que foi precisa uma equipa de 9 pessoas para nos porem aos 2 la em cima quase nos 6000m? Pela rota que escolhemos (Whisky, lembram-se), sao entao precisos (imposicao das autoridades do parque): 1 guia (Arnold), um guia assistente (Yusto), 1 cozinheiro (Maulidi) e 3 carregadores por pessoa (2x3 = 6 carregadores). A economia deste pais vive disto e, como tal, nao temos que fazer quase nada, apenas carregar a mochila do dia, com a racao de combate tambem fornecida num tuperware, tudo direitinho e dieticamente calculado ao pormenor para nunca nos faltar as forcas. A logistica destes homens e' incrivel. E nos ate ficavamos incomodados com tanta papariquice. Do genero, chegavamos ao campo e traziam-nos uma bacia com agua quentinha para nos lavarmos. Logo de seguida serviam-nos o lanche, cha, pipocas, amendoins, uns snacks. Ainda sem termos parado de arrumar/desarrumar o material, preparando-nos para a noite e posicionando tudo para o dia a seguir, ja nos estavam a servir o jantar. Sabe bem nao ter que fazer nada, mas tambem confesso que me senti um bocado animal de jardim zoologico a ser alimentado na jaula. Sim, que com o frio/vento que sempre estava ao final do dia, a "mesa" era-nos posta numa das entradas da tenda sempre com uma vista exuberante e faziamos tudo debaixo das lonas da tenda.
O melhor destes dias foi a conquista! A conquista de forcas, a conquista de momentos, a conquista de objectivos pequenos para a conquista do objectivo final - o cume e depois a descida. Fica ainda uma experiencia extrema de disciplina. Na gestao do esforco/descanso fisico (num dia tivemos mesmo de nos deitar ainda de dia). Disciplina na alimentacao, forcar comer quando podiamos comer, devorar mais e mais do que queriamos, para nao fraquejarmos e... disciplina no consumo de agua, no minimo 3L/dia. Este ultimo, obrigava a uma outra disciplina, a da urina, muito xixi fizemos nos! E com uma vontade, que nem vos digo nada. Segundo os livros, deve-se somar 1,5L urina/dia!!
Foi duro. Foi muito duro. Quem ja esteve na montanha sabe do que falo. Por exemplo, no acampamento em Barafu, a 4600m, praticamente nao conseguimos dormir. Alem do nariz ligeiramente entupido, a respiracao e' sempre ofegante. E arrumar o saco-cama? Jesus, que tarefa faraonica... O WC era a uns escassos 20m da tenda. Ir, fazer as necessidades numa latrina 'a cacador e voltar, chegou-me a demorar 24min (sem jornal para ler). E cheguei cansadissimo... Mas acreditem, so nos riamos com este nosso subito e precoce envelhecimento. Para mim, um dos momentos mais dificeis foi a 2a noite, em Shira. Choveu e esteve vento a noite toda, que dentro da tenda, faz um barulho incrivel. Nao pregamos olho e claro, o 3o dia custou, nao tinhamos descansado nada. Fomos dos 3800 aos 4600 para voltarmos a descer aos 3900 (melhor forma de aclimatizar). Foi aqui que a Li teve os primeiros e felizmente unicos efeitos de altitude. As tais dores de cabeca. Eu tambem as tive. E na pausa de almoco chegou mesmo a vomitar. Depois disso, sentiu-se melhor e a perda de altitude ajudou. O 3o dia que devia ter demorado 6h de caminhada, demorou 8h. Mas la chegamos devagarinho ao acampamento de Barranco. Com uma noite seguinte dormida como uns be'be's, as forcas foram totalmente recuperadas e o dificil foi seguir a regra do "Pole Pole" (devagar devagar). A Li esteve em grandessissima forma. Subimos a "parede de Barranco" num dia marcado por um sol radioso e uma paisagem incrivel e, embora a medo, nao voltamos a ter sintomas incomodos e facilmente passamos pelo acampamento de Karanga e chegamos ao acampamento de Barafu, a pole position para o cume. O dia do cume merece um post, mais tarde... A descida foi logo no dia do cume e num outro dia. Foi por outra rota e, por isso mais rapida. Mesmo assim, parecia-nos interminavel. Destas horas de descida, fica mais outro registo/licao de vida. Por mais dificil que seja o destino final, o que interessa e' a vontade, persistencia e concentracao na tarefa actual, que aqui se resumia a um simples passo apos o outro. Tivemos uma sorte fantastica com os guias. Foram impecaveis em tudo, na motivacao da Liliana e minha, dia ap'os dia, no gestao das nossas emocoes/ansiedades e na atencao aos sinais vitais sempre. Muito profissionais. O cozinheiro era quase uma mae. Trouxe-nos na palma da mao e esteve sempre atento aquilo que fomos comendo e bebendo. Recebemos o diploma da chegada em "Mweka" sem qualquer ferida ou lesao, ou seja, como fomos e voltamos em seguranca dizemos "Fizemos Cume!"


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