domingo, 4 de novembro de 2012

Singularidade da presença

Gosto, gosto muito da singularidade da presença. Ter o privilégio de estar em exclusivo num sítio único, deslumbrante e arrebatador. Sem nenhum estranho, sem nenhum  desconhecido. Estar aí apenas só ou com os nossos. Saborear esse momento, essa presença. Interiorizar a singularidade desse exclusivo. É na montanha que mais sinto este prazer. Subir lentamente por um trilho, largar a vegetação densa da baixa altitude, ganhar cota, vencer um desnível, enxargar longe a paisagem, sem mais ninguém por perto é simplesmente delicioso. Devolve-me um sentimento de pertença e total sintonia com a natureza, com o universo. Oferece-me um exclusivo que por vezes quase me parece impossível. Como é possível que um sítio daqueles, naquele momento seja só meu? Onde é que se arrumaram cada uma das sete mil milhões de pessoas? É de facto um gosto meu, fugaz é certo, mas intenso. Difícil de alcançar, ainda assim frequente o suficiente para lhe dar o devido destaque. Mas este sentimento, esta singularidade que sinto e saboreio não é exclusivo da montanha. Ocasionalmente ao fim de semana, numa simples incursão de BTT pelas cercanias de Celorico, sinto isto. A escassa distância de casa, dou por mim em cenários de vistas largas, polvilhados aqui e ali pelos sons da natureza. E ali estou eu, num local único, em exlcusivo só para mim. Mas o mais recente momento foi há instantes. Estamos em Lisboa, alojados em Belém. Antes de jantar saímos com o Tiago e fizemos a promenade dos Jerónimos. Um passeio calmo, aqui e ali com pequenos grupos, maioritariamente em modo de despedida a denunciar provavelmente o final de alguma cerimónia de domingo na Igreja. O passeio banal e não muito demorado na rua era o programa. Mas as portas do mosteiro estavam abertas, como que a convidar. Entrem! E nós entramos. Já tinha estado várias vezes nos Jerónimos. Aliás, em noventa e oito cheguei mesmo a morar aqui ao lado durante cinco semanas. Mas hoje o interior do Mosteiro foi especial. Quando entramos havia ainda uma ou outra pessoa a arrumar o espaço. Estava também um casal só sentado num dos bancos. Mas, pouco depois, ficamos só nós. Nós os três e o Mosteiro dos Jerónimos, naquele instante em exlcusivo, gratuitamente e em todo o seu esplendor. A nossa presença eclipsa-se tal é a grandiosidade do espaço. Um privilégio ter assim, naquele momento, por muito fogaz que seja, esse privilégio, esse gosto que tanto prazer me dá. Por isso gosto, gosto muito da singularidade da presença.

Carlos Sá, nosso grande ultra-marationista, nos Alpes

Eu no Penedo Durão, em Freixo de Espada à Cinta | março 2008
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