sábado, 3 de novembro de 2012

Sombras e Silhuetas

Gosto, gosto muito de sombras e silhuetas. Essa realidade que nos rodeia e que não ocupa espaço, esssa imaterialidade que nos cerca, sem nunca nos invadir. As formas oursadas, distorcidas, exageradas ou minguadas dos nossos corpos, do nosso mundo. As sombras, essas entidades bidimensionais que recortam o que lhes deu origem, que decalcam as fronteiras da existência. As sombras são uma fonte inesgotável de informação, gratuitamente disponível à nossa volta todos os dias, assim haja luz suficiente para se revelarem. Mas as silhuetas são ainda mais inspiradoras. Um foco de luz milimetricamente tapado por um corpo. Uma barreira violenta e impenetrável à fonte de luz que se afigura por de trás. Uma expressão visual extremamente expressiva do contra-luz. São românticas as silhuetas. Sem o mostrarem insinuam, estimulam a imaginação, preservam o essencial desvendando apenas o necessário. Sombras e silhuetas atrem-me não só pelas formas, mas também pela negação daquilo que são. A antítese da luz, o contraponto da existência. As sombras, para nós, andam em contraciclo. Quando os dias crescem e o sol sobe mais alto, as sombras encolhem-se e envergonham-se. Quando o inverno se aproxima, e o sol teima em baixar a sua rota, as sombras alongam-se e dão fôlego aos egos mais introvertidos. «Olha só para mim, como sou grande!». Uma sombra é também amparo e porto de abrigo. Do calor, do verão, da violência dos raios ultra-violeta do sol. Uma sombra protege, ampara e refresca-nos. Valha-nos uma sombra no verão. Há também as sombras preguiçosas como a do lucky-luke, sempre mais lenta que o herói. E há as sombras mais famosas da humanidade, essas que já tanto deram que falar, que tantos mitos originaram, que tanta espetacularidade nos trouxeram. De que falo? Eclipses. Essa manifestações planetárias do expoente máximo das sombras. Ou a sombra da nossa Terra projetada na lua, num eclipse lunar, ou a sombra da lua projetada em nós, com um eclipse do sol. Total, parcial ou anelar, um eclipse é um fenómeno mais ou menos periódico que agita a comunicação social, que nos provoca alterações de hábitos e nos inspira. Gosto, gosto muito das sombras dos eclipses. As sombras e silhuetas são pois um recurso gratuito cheio de valor. Há uns anos atrás, a pensar num projeto, um tópico, um motivo de atenção para um projeto fotográfico a longo prazo, lembrei-me precisamente das sombras. O "projeto sombras" como lhe chamo. Em cada viagem, em cada recanto, em cada momento estar atento, estar atento às sombras. Registar, fotografar e avaliar o que daí sai. Tentar extrair a essência de algo, apenas e só pelo registo nú da sua sombra. Será que vale a pena? Será digno de nota este registo? Olhando para alguns desses registos, diria-me que sim. Cada sombra, um momento, um momento mágico, um gosto. Descobri assim afinal que gosto, gosto muito de sombras e silhuetas.



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