domingo, 28 de outubro de 2012

Acampar

Gosto, gosto muito de acampar. Regressar ao passado e sentir de perto, de muito perto, a natureza. Viver ao ar livre, ao sabor dos elementos, sentir o sol, o vento, por vezes até o barulho sonoro da chuva. Sentir os cheiros todos da terra. Ouvir o ruído das árvores, das aves e de todos os animais que pululam à nossa volta. Saborear uma refeição preparada ali mesmo, ao lado da tenda, rodeados de cenários arrebatadores. Sentir o calor e o aconchego de uma fogueira. Este meu gosto muito deve ter que ver com as minhas boas memórias passadas. Fui escuteiro. Entrei para o movimento com oito ou nove anos, já não me recordo bem. Cresci, acampei sempre todos os anos, várias vezes. Somei dezenas de "noites de campo". Ultrapassei mesmo a centena. E recordo-me de muitas. A primeira, sem dúvida. Uma bela noite de verão, em julho, com outros tantos meninos da mesma idade. Todos inquietantemente ansiosos por esse momento em que o sol se vai e a noite chega. Esse momento da primeira noite fora de casa. Um misto de emoção e de medo. Sim, que a noite, lá fora é escura, muito escura. A simples ida à latrina, oxalá não seja preciso, é uma aventura gigantesca. Valha-nos a defesa da lanterna, religiosamente guardada, dentro do saco cama, para acender ao mínimo barulho. Mas a emoção venceu esse medo inicial, e mais, muito mais noites se seguiram. O prazer de adormecer debaixo das estrelas e acordar com os primeiros raios de sol. Mesmo nas noites de chuva é um prazer. Mais tarde, já com a sabedoria e segurança do empenho na montagem da tenda, com a drenagem das águas devidamente acautelada. Estar dentro da tenda com essa certeza, dentro de um bom saco cama, quente, muito quente e ouvir o tic-tac da chuva na lona, como que um espetáculo de percursão ali tão perto, é no mínimo envolvente. Experimentei várias tendas. De início as tradicionais canadianas, triangulares como uma caixa de palitos, pequenas de dois lugares, ou maiores de seis ou oito. Mais recentemente os cómodos "iglôs" quadrangulares, leves e de fácil de montagem. Mas recordo-me mais de uma tenda muito especial. Uma tenda que os escuteiros  universitários finlandeses do meu ERASMUS  (SOOPA) usam e que levaram para o fim de semana onde acampei com eles. Uma tenda enorme onde coubemos todos, com um pormenor fabuloso. Uma salamandra no interior! Isso mesmo. Um ponto de queima de lenha, lá dentro, com chaminé até ao topo da tenda, para nos proteger e tornar possível o acampamento naquelas condições onde o termómetro roçava o zero. Um dispositivo que obrigava a uma vigia constante ao longo da noite, quer para alimentar o fogo, quer para zelar pela segurança dos que dormiam. com uma escala mitilarmente assegurada, para o bem de todos. Foi uma emoção e um conforto adicional sem precedentes. Por esta e por tantas outras aventuras ao ar livre, gosto, gosto muito de acampar.



Acampamento com os "SOOPA" | Finlândia, outubro 2001
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