sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Silêncio

Gosto, gosto muito do silêncio. Da ausência de qualquer distúrbio, ruído ou som. Aquela atmosfera onde a audição fica extremamente irrequieta, por falta inusitada de qualquer estímulo. O silêncio reconfortante, que nos tranquiliza e nos devolve a paz de espírito. Recordo-me daquilo que me diziam o professores de edução musical. A melodia tem que ser sentida, cada nota tem que ter a sua alma, mas são as pausas ou, mais delicioso ainda as "figuras de silêncio" que dão corpo à melodia. Uma boa performance implica um respeito absoluto por cada pausa, na totalidade do tempo que representam. E ouvir uma orquestra em uníssono a "emitir" uma pausa, a emanar um silêncio, ao comando de um maestro que flete os joelhos, abre delicadamente as palmas das mãos oscilando os braços para baixo, como que apagando um lume quase extinto, é a imagem mais viva que retenho do silêncio. Mas este bem já não é universal. Temo até que neste boliço constante e crescente, o silêncio comece a ser raro, quase em vias de extinção. Ainda assim, na busca de silêncio de quotiano, ainda vou encontrando. Aqui em Celorico, a noite veste-se de silêncio. Aqui e ali interrompido pelo ladrar afoito de um cão de guarda. Nas noites de inverno, mais longas, mais frias e necessariamente obrigando a um recolher mais precoce, este silêncio mais frequente se torna. Que bom que é adormecer sossegado assim, sem barulho, sem camiões do lixo, sem ambulâncias ou carros de polícia, sem motores acelerados por perto, sem festivais ou queimas das fitas. O sono ganha, a saúde agradece, a alma recupera. Mas recordo-me ainda de outros momentos onde o silêncio, de ouro, me preenche. O Parque de Montesinho, tão recôndido, no limite da nação, ostenta ainda hoje silêncio terapêutico, grátis e para quem o quiser aproveitar. As igrejas menos visitadas, fora das celebrações, recolhem e ainda oferecem silêncio precioso para meditar ou simplesmente para estar. Mas bom ainda, descobri esta semana, é um museu. Um museu, em dia da semana. Um museu de arte contemporânea em dia da semana. O Centro de Arte Moderna Gerardo Rueda de Matosinhos. Ali ao lado de casa. Fui lá, na quarta feira com o Tiago. Um espaço curioso, com um acervo não muito extenso, mas ainda assim com uns esquissos de Mirró, por exemplo. Mas vale a pena também pelo silêncio. Um museu inteiro, só para nós, com o Tiago a dormir tranquilamente a sesta, proporcionou silêncio, paz e sossego. Tal como na música, gosto destes momentos breves de silêncio. Sabem bem e reconfortam. Preciso deles e por tudo isto gosto, gosto muito do silêncio.







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